A forma como as empresas brasileiras declaram neutralidade de carbono mudou radicalmente. Com a publicação da NBR ISO 14068-1 pela ABNT em 2024, o país adota um padrão técnico internacional que cancela a antiga Prática Recomendada (PR 2060) e estabelece critérios rigorosos para quem deseja fazer alegações de carbono neutro. Portanto, empresas que comunicam neutralidade climática precisam revisar suas estratégias com atenção.


O que é a NBR ISO 14068-1 e por que ela foi criada

A NBR ISO 14068-1 é uma norma técnica internacional que estabelece requisitos e orientações para organizações que buscam alcançar e declarar neutralidade de carbono. Publicada pela ABNT em 2024, ela representa a versão brasileira da ISO 14068-1:2023, desenvolvida pela International Organization for Standardization.

O aumento de alegações de neutralidade sem base técnica sólida gerou desconfiança no mercado e entre consumidores. Além disso, práticas questionáveis de compensação de emissões permitiam que empresas declarassem neutralidade sem reduzir efetivamente suas emissões. Consequentemente, a ISO desenvolveu esta norma para trazer rigor metodológico e transparência às declarações climáticas.

A NBR ISO 14068-1 cancela e substitui a ABNT PR 2060, que era menos rigorosa e permitia interpretações amplas. Assim, empresas que seguiam a PR 2060 precisam adequar seus processos ao novo padrão técnico o quanto antes.


A mudança central da NBR ISO 14068-1: hierarquia de mitigação obrigatória

O ponto central da norma é a imposição de uma hierarquia de mitigação que prioriza a redução de emissões sobre a compensação. Esta mudança altera completamente a lógica de como sua empresa pode alcançar a neutralidade de carbono.

Sob a antiga prática recomendada, era possível calcular as emissões totais, comprar créditos de carbono equivalentes e declarar neutralidade imediatamente. Consequentemente, muitas organizações focavam em compensação em vez de redução, mantendo suas emissões elevadas enquanto adquiriam créditos para neutralizar o impacto no papel.

A NBR ISO 14068-1 estabelece uma sequência obrigatória diferente. Primeiramente, é preciso medir: realizar um inventário completo de Gases de Efeito Estufa (GEE) conforme a ISO 14064-1 ou o GHG Protocol. Em seguida, reduzir: implementar ações concretas de redução de emissões na fonte. Por fim, compensar: utilizar créditos de carbono apenas para emissões residuais, aquelas que não podem ser eliminadas com a tecnologia disponível atualmente.

Portanto, a compensação deixa de ser o caminho principal e se torna o último recurso, aplicável somente após demonstrar esforços genuínos de redução.

O que a NBR ISO 14068-1 define como emissões residuais

Emissões residuais são aquelas que, mesmo após todas as medidas tecnicamente viáveis de redução, ainda permanecem. Exemplos incluem emissões de processos industriais específicos (como a produção de cimento), transporte aéreo de longa distância sem alternativa viável e emissões de fontes biogênicas em setores agropecuários.

Dessa forma, a norma reconhece que certas atividades econômicas não conseguem eliminar totalmente suas emissões com a tecnologia atual. Mas exige que tudo o que é tecnicamente possível seja feito antes de recorrer à compensação.

Comparativo "ANTES (PR 2060)" vs "AGORA (NBR ISO 14068-1)" com colunas comparando: Compensação ampla vs Redução obrigatória | Alegação permanente vs Estágio transitório | Critérios flexíveis vs Hierarquia rigorosa


Neutralidade de carbono como etapa, não como destino final

Outro conceito central da NBR ISO 14068-1 é o tratamento da neutralidade de carbono como etapa intermediária em uma jornada maior rumo ao Net Zero, ou seja, às emissões líquidas zero.

A neutralidade de carbono representa o balanceamento entre emissões e remoções em um período específico, geralmente anual. Ela permite o uso de créditos de carbono de projetos externos e pode ser declarada por produtos, serviços, eventos ou organizações inteiras. O Net Zero, por outro lado, exige a redução absoluta de emissões em pelo menos 90% em relação a uma linha de base, com apenas emissões residuais podendo ser neutralizadas. Trata-se de um compromisso de longo prazo, geralmente até 2050, alinhado com metas baseadas na ciência, como as da Science Based Targets Initiative.

Portanto, a NBR ISO 14068-1 exige que empresas que declaram neutralidade de carbono apresentem também um plano de transição demonstrando como vão evoluir para o Net Zero no longo prazo. Declarar neutralidade sem esse plano não atende à norma.


Requisitos técnicos da NBR ISO 14068-1 para declarar neutralidade

Para que uma organização possa declarar neutralidade de carbono conforme a norma, precisa atender requisitos específicos e documentados.

Inventário de GEE completo e verificado

O inventário deve cobrir todos os Escopos de emissões (1, 2 e 3 quando aplicável), seguir metodologia reconhecida (ISO 14064-1 ou GHG Protocol), ser verificado por terceira parte independente e abranger um período de 12 meses. Além disso, o inventário precisa identificar claramente quais emissões são evitáveis e quais são residuais.

Meta de redução quantificada

A organização deve estabelecer e documentar uma meta com percentual ou volume definido de redução, prazo para alcance, ações específicas de mitigação e indicadores de progresso. Declarações genéricas como “estamos comprometidos em reduzir emissões” não atendem à norma. É necessário especificar quanto, quando e como.

Plano de gestão de GEE

Também é preciso documentar formalmente as responsabilidades internas, os recursos alocados (orçamento, equipe, ferramentas), o cronograma de implementação das ações de redução e os processos de monitoramento e revisão periódica.

Compensação somente das emissões residuais pela NBR ISO 14068-1

Para as emissões que não podem ser eliminadas, a compensação deve usar créditos de carbono que atendam critérios rigorosos. Os principais são adicionalidade (a remoção não teria ocorrido sem o projeto), permanência (as remoções de CO2 são duradouras), ausência de dupla contagem e presença de co-benefícios socioambientais. Créditos de baixa qualidade ou de fontes duvidosas não são aceitos pela norma.

Comunicação transparente exigida pela norma

Qualquer declaração pública de neutralidade de carbono deve especificar o período de referência, o escopo da alegação, o volume de emissões quantificado, o volume de reduções alcançadas em comparação com o volume compensado, os tipos de créditos utilizados e a disponibilidade de relatório completo para verificação. Comunicações vagas como “empresa carbono neutro” sem essas especificações configuram potencial greenwashing.

Linha do tempo mostrando fábricas diminuindo a emissões progressivamente.


Quem é impactado pela NBR ISO 14068-1

A norma afeta diretamente empresas em situações específicas.

Organizações que já comunicam publicamente serem “carbon neutral” ou “carbono neutro” precisam adequar suas práticas aos novos requisitos. Portanto, campanhas de marketing baseadas apenas em compensação, sem redução efetiva, precisam ser revisadas.

Empresas brasileiras que fornecem para a União Europeia, o Reino Unido, o Canadá e outros mercados com regulação climática forte encontram na NBR ISO 14068-1 um instrumento de credibilidade. Além disso, alguns compradores internacionais já exigem conformidade com a ISO 14068 como critério de homologação de fornecedores. Nesse contexto, a norma funciona como um passaporte para mercados mais exigentes.

Bancos e investidores institucionais utilizam normas ISO como critério de due diligence para aprovar green bonds, linhas de crédito com taxas diferenciadas e investimentos ESG. Consequentemente, empresas com neutralidade certificada reduzem seu custo de capital. Setores como aviação, logística e varejo, que possuem iniciativas coletivas de neutralidade, também precisam demonstrar conformidade com padrões técnicos reconhecidos.


CONHEÇA A PLATAFORMA VERTOWN


Como adequar sua empresa à NBR ISO 14068-1

O caminho para conformidade envolve etapas técnicas e estratégicas que podem ser organizadas em sequência.

O primeiro passo é um diagnóstico da situação atual. Verifique se sua empresa já possui inventário de GEE atualizado e verificado, quais são as emissões por escopo, se existem ações de redução documentadas e como as emissões estão sendo compensadas hoje.

Em seguida, é preciso estabelecer uma linha de base. Defina um ano-referência e quantifique as emissões totais naquele período. Portanto, esse será o ponto de partida para medir as reduções futuras.

Com a linha de base definida, mapeie as oportunidades de redução. Eficiência energética, transição para fontes renováveis, otimização logística, mudanças de processos industriais e a própria gestão de resíduos (reciclagem, compostagem, valorização energética) são caminhos concretos. Execute as ações priorizadas e monitore os resultados continuamente.

Somente depois disso é que a compensação de emissões residuais entra em cena. Utilize créditos certificados por padrões reconhecidos, como o Verified Carbon Standard (VCS/Verra) ou o Gold Standard. Por fim, contrate um organismo de certificação acreditado para verificar o inventário de GEE e validar a conformidade com a NBR ISO 14068-1. Assim, a declaração de neutralidade ganha credibilidade e proteção contra acusações de greenwashing.

Um exemplo concreto de como a gestão de resíduos contribui para esse processo: a Elera Renováveis, cliente da Vertown no setor de energia, reduziu em 70% o descarte de resíduos em aterro após estruturar sua gestão com a plataforma. Na prática, cada tonelada desviada de aterro representa emissões de metano evitadas, ou seja, redução real e documentada no Escopo 3. Empresas que já estão estruturando essa jornada podem explorar os cases de redução de emissões da Vertown para entender como os números se conectam.


Integridade dos créditos de carbono segundo a NBR ISO 14068-1

A norma eleva significativamente a barra de qualidade dos créditos de carbono aceitos para compensação. Consequentemente, créditos duvidosos ou de baixa integridade não atendem aos seus requisitos.

Um crédito de alta qualidade precisa atender a alguns critérios essenciais. A adicionalidade exige que o projeto demonstre que as reduções não teriam acontecido sem o financiamento dos créditos. Assim, plantar árvores em área que já seria reflorestada naturalmente não gera crédito adicional. A permanência é especialmente relevante para projetos de remoção: o CO2 capturado precisa permanecer fora da atmosfera por décadas. Projetos com risco alto de reversão, como os expostos a incêndios ou desmatamento posterior, têm menor valor de mercado.

Além disso, a metodologia de MRV (Monitoramento, Relato e Verificação) deve seguir protocolos científicos com medições auditadas periodicamente. O projeto também não pode simplesmente deslocar emissões para outro local, o chamado efeito de fuga. E créditos de projetos que geram emprego, respeitam direitos de povos indígenas e protegem ecossistemas têm preferência no mercado voluntário.

O mercado voluntário de carbono enfrenta desafios de credibilidade. Portanto, é importante fazer due diligence antes de comprar créditos: evite projetos antigos sem monitoramento atualizado, desconfie de preços muito abaixo da média e verifique se o registro está ativo e não foi aposentado por outra organização.

Checklist critérios de crédito carbono


Vantagens competitivas para quem adota a NBR ISO 14068-1

Empresas que adotam a norma ganham benefícios estratégicos que vão além da conformidade técnica.

A verificação de terceira parte e a transparência exigida protegem contra acusações de lavagem verde, reduzindo o risco reputacional e legal. Compradores europeus e norte-americanos valorizam fornecedores com certificações ISO reconhecidas internacionalmente e, além disso, a conformidade antecipa exigências como o CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism) da União Europeia.

Com poucas empresas ainda conformes à nova norma, os early adopters ganham vantagem em licitações sustentáveis e na percepção de clientes B2B. Fundos de investimento e family offices que aplicam critérios ESG rigorosos buscam empresas com metas climáticas verificadas e alinhadas a padrões internacionais. E ainda: profissionais qualificados, especialmente das gerações mais jovens, priorizam empregadores com compromissos climáticos genuínos e auditados.


Erros comuns na implementação da NBR ISO 14068-1

Com base nas experiências iniciais de adoção da norma, alguns equívocos aparecem com frequência.

O mais grave é declarar neutralidade antes de reduzir: comprar créditos imediatamente e comunicar neutralidade sem implementar ações de redução. A hierarquia de mitigação é obrigatória. O segundo erro frequente é usar créditos de baixa qualidade para economizar. A reputação e a conformidade com a norma dependem da integridade dos créditos utilizados.

Outro ponto de atenção é não documentar o plano de transição para Net Zero. A norma exige esse plano de longo prazo com metas intermediárias e finais. Também é preciso ter cuidado com comunicações vagas: termos como “empresa verde” ou “100% sustentável” sem base técnica violam a norma. Seja específico: “Neutro em carbono nos Escopos 1 e 2 em 2025, conforme NBR ISO 14068-1”.

Por fim, esquecer o Escopo 3 é um erro que compromete a validade da declaração. O Escopo 3 geralmente representa entre 70% e 90% das emissões totais de uma empresa e precisa ser incluído em alegações completas de neutralidade.

proporção típica de emissões corporativas por escopo

Para empresas que ainda estão estruturando o controle do Escopo 3, um bom ponto de partida é mapear a destinação dos resíduos sólidos, que impacta diretamente esse escopo. Confira como o PGRS (Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos) pode apoiar esse processo.


A NBR ISO 14068-1 e a nova era da governança climática corporativa

A publicação desta norma marca uma virada de maturidade na agenda climática brasileira. Portanto, empresas que ainda tratam neutralidade de carbono como estratégia de marketing precisam urgentemente revisar suas práticas.

A tendência global é de aumento da regulação climática. A União Europeia já implementou obrigatoriedades de reporte de emissões por meio da CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) e do mecanismo de ajuste de carbono na fronteira. Consequentemente, empresas brasileiras exportadoras que não se anteciparem a esses padrões perderão competitividade no médio prazo.

A NBR ISO 14068-1 não é apenas uma norma técnica. É um instrumento de governança que força as organizações a olharem para suas emissões com o mesmo rigor dedicado aos resultados financeiros. A era das alegações climáticas sem fundamento está chegando ao fim. O novo padrão é redução verificada, compensação responsável e transparência total.

Empresas que dominarem os requisitos da norma estarão na liderança da economia de baixo carbono, acessando mercados, capitais e talentos que exigem compromissos climáticos genuínos e auditáveis. Se sua empresa quer entender por onde começar essa jornada, preencha seus dados e nosso time entra em contato com você.

A Vertown transforma dados de resíduos em conformidade automatizada

  • Emissão de MTR federal e estadual, controle de CDFs e alertas de licenças vencidas em uma única plataforma
  • Módulo de solicitações para gestão completa do transporte e coleta de resíduos
  • Relatórios ESG gerados automaticamente a partir dos dados operacionais
CONHEÇA A PLATAFORMA VERTOWN
A Vertown transforma dados de resíduos em conformidade automatizada
Marketing Vertown

Conteúdos e insights para impulsionar estratégias e fortalecer a gestão ambiental na sua empresa.

Conteúdos relacionados

Ver mais
ESG Corporativo
27/03/2026

IFRS S1 e S2: Quando Sustentabilidade Vira Obrigação Financeira para Companhias Abertas

Entenda as normas IFRS S1 e S2, obrigatórias desde janeiro/2026 para companhias abertas no Brasil. Saiba os requisitos, prazos e como se adequar à CVM.

Não deixe para depois

Junte-se a empresas que estão transformando desafios em oportunidades para um futuro mais sustentável!

Ops! Um erro aconteceu durante o seu cadastro. Tente novamente
Obrigado! As suas informações foram enviadas com sucesso!
O campo SMS deve conter entre 6 e 19 dígitos e incluir o código do país sem usar +/0 (por exemplo: 1xxxxxxxxxx para os Estados Unidos)
?

Reconhecimento de quem faz acontecer

Nossos selos e premiações refletem o compromisso diário com a sustentabilidade, a inovação e a responsabilidade climática.

Reconhecimento de quem faz acontecer Reconhecimento de quem faz acontecer